Haddofield, 6:35 am
“
Bom dia meus amigos, acordem jovens desafortunados, é mais uma belo dia para
começar os estudos! Aqui é seu amado companheiro Chris Myers, diretamente das
manhãs agitadas de Haddofield. Vamos começar outra quinta—feira ouvindo a nossa
seção desperta moçada! Aqui diretamente da 93.5 a rádio que você não tira da
cabeça!
E
agora com vocês time after timeeee!!! Da deusa Cindy Lauper!
Sandy Grayson
está terminando de se arrumar para ir à escola sentada diante da penteadeira
com luzes amarelas, a garota de olhos verdes e cabelos cacheados termina sua
maquiagem, enquanto escuta no pequeno rádio de pilha sobre a cômoda a música da
Cindy Lauper na estação 93.5. Ela não
pode demorar muito, já que seu namorado Max vai em breve buzinar na frente da
casa para que possam ir juntos ao colégio.
A menos de
quatro quadras da casa de Sandy, Max Cann terminava sua ducha quente, deixando
que a água escorresse por seus ombros. O vapor preenchia o pequeno banheiro,
criando uma névoa densa. Ele estava quase terminando quando um bater insistente
ecoou pela porta.
— Anda logo,
Max! Eu vou me atrasar! — gritou Lucy, sua irmã mais nova, com a impaciência
típica de quem não gosta de esperar.
Max abriu a
porta apenas o suficiente para que o vapor escapasse, revelando seu rosto meio
encoberto pelas mechas molhadas do cabelo. Com um sorriso sarcástico, ele
respondeu:
— Se você está
com pressa, deveria acordar mais cedo, não acha?
Lucy, que já
havia perdido a paciência, puxou o irmão para fora com uma força surpreendente
para seus treze anos.
— Quem você
pensa que é, a mamãe?
Max riu,
tentando acalmar a irmã, mas antes que pudesse falar algo, ela bateu a porta
com força.
— Nervosinha...
— murmurou ele, caminhando para o quarto.
Antes que
pudesse fechar a porta, ouviu a voz de Lucy soar novamente, agora do banheiro.
— O papai disse
para você me dar carona para a escola.
Max bufou,
resignado.
— Droga.
Do outro lado da
rua, Jimmy Courtney ajustava seu cabelo volumoso diante do espelho. Ele se
olhou por um momento, satisfeito.
— É, Jimmy, você
está um arraso.
Pegou a jaqueta
do time de basquete, orgulhoso. Conquistar aquela jaqueta havia sido uma luta
árdua; no ano anterior, ele era o garoto da água, alvo de piadas por ser baixo
demais para o time. Um jogador de basquete negro com menos de 1,80? Uma piada,
dizia o treinador. Mas tudo mudou naquela tarde em que Cal, o técnico, o viu
jogar contra dois garotos mais velhos em uma partida de rua. Aquela vitória
virou o jogo.
Descendo para a
cozinha, Jimmy encontrou sua mãe preparando o café da manhã. Seu pai estava na
mesa, com os olhos fixos no jornal.
— Estou indo,
mãe — disse ele, pegando uma maçã do cesto.
— E o café da
manhã, filho? — questionou a mãe, preocupada.
— Eu como na
escola.
— Nada disso,
rapaz. Sente-se e coma. Sua mãe preparou o café, o mínimo que pode fazer é
comê-lo — disse o pai, sem desviar os olhos do jornal.
Jimmy suspirou,
sabendo que não adiantava discutir.
— Está bem, pai.
Mary Coller, por
outro lado, não teve um boa noite de sono. Vestindo seu característico vestido
de renda amarelo e os óculos de fundo de garrafa, ela saiu cedo de casa, com
olheiras visíveis. O sono estava se tornando um luxo raro, desde o dia em que
ouvira aquela música pela primeira vez.
Era uma melodia
perturbadora, que se repetia incessantemente em sua mente, como um disco
riscado. No início, ela achou que seu cérebro estava apenas desviando sua
atenção das tarefas escolares, mas a música continuava a surgir nos momentos
mais inesperados — no rádio, na televisão, até mesmo nas conversas casuais.
Mas o pior de
tudo era à noite. Quando tentava dormir, a melodia ganhava vida, acompanhada
por um sussurro. Uma voz que implorava para que ela cantasse. Mary se encolhia
debaixo das cobertas, resistindo com todas as forças. Sabia que, se cantasse,
algo terrível poderia acontecer. E isso ela não estava disposta a descobrir.
Sentada no ponto
de ônibus, Mary tentava a todo custo distrair a mente, evitando pensar na
música. Nem se atrevia a ligar o rádio. Ela precisava, de alguma forma, apagar
aquilo da cabeça.
— Olha só, é a
nossa amiga quatro-olhos — disse uma voz rouca e arrogante.
Mary reconheceu
imediatamente. Billy Baxter. E claro, não precisava se virar para confirmar;
onde Billy estava, o Sapo também estava.
— Nossa, Mary
zoiuda — completou Sapo com seu tom zombeteiro.
Sapo era o
apelido de Joe Ruligan. Ele ganhou esse apelido quando descobriram que seu
animal de estimação era um velho sapo gordo, e quando a puberdade chegou e seu
rosto se encheu de espinhas, o apelido grudou de vez.
— Não está cedo
para a escola, Mary zoiuda? — perguntou o Sapo.
— Não a chame
assim, Sapo. Não vê que ela vai ficar magoada? — disse Billy, dando um leve
tapa na cabeça do amigo.
Por um instante,
Mary achou que o garoto realmente estava a defendendo, mas, quando pensou em
abrir a boca para responder, ele continuou:
— Chame de
quatro olhos, é mais educado!
Os dois garotos
caíram na risada enquanto Mary se encolheu no banco. Ela odiava esses apelidos,
odiava os garotos que se achavam engraçados zombando dela por sua aparência,
odiava aquela escola, mas odiava ainda mais Sandy. Como ela pôde trocar sua
amizade pelo time de líderes de torcida? Como pôde?
— O que está tão
engraçado? — perguntou Jimmy, aproximando-se do ponto de ônibus. Seu tom de voz
era sério.
Ao ouvir Jimmy,
a jovem sorriu. Gostava dele, gostava de um jeito que ele não retribuía, mas
ele era um bom amigo — se é que se pode chamar um garoto que troca um "bom
dia" toda vez que te vê pela manhã de amigo.
— Estamos só
brincando — respondeu Sapo.
— Sei, mas ela
não parece estar se divertindo, Sapo — disse Jimmy, mantendo um olhar sério
sobre os garotos.
— Qual é, Jim,
vai querer encrenca agora? — Billy se aproximou, encarando-o. — Acha que só
porque é do time pode me peitar?
— Deixa ela em
paz.
— E se eu não
quiser?
Sapo e Mary
sentiram o clima ficar tenso. Os dois se olharam como se perguntassem: "E
agora?"
O ônibus escolar
parou e a porta barulhenta se abriu. Mary aproveitou o momento, levantou-se e
passou entre os dois, puxando Jimmy pelo braço.
— Você pode me
ajudar?
Jimmy a seguiu,
mas antes de entrar no ônibus, olhou mais uma vez para Billy.
— Não precisava
me defender — disse Mary, sentando-se na terceira fileira à esquerda do ônibus.
— Eu sei que não
— respondeu Jimmy, sentando-se ao lado dela. — Só estou cansado do Billy e do
Sapo, eles vivem pegando no pé de todo mundo. Alguém tem que pegar no pé deles
para variar.
— Acho que você
tem razão — Mary respondeu, com a voz baixa e tímida.
Billy e Sapo
passaram pelos dois e fizeram gestos com a boca, insinuando que eles eram um
casal. Jimmy apenas balançou a cabeça, negativamente.
A porta
basculante se fechou e o veículo escolar seguiu viagem. Desceu a rua Elm, virou
à direita, onde parou no sinal de pare, esperando uma fila de carros, cujos
motoristas eram pais apressados para o trabalho. Seguiu em frente por mais
quatro quadras até virar à esquerda, saindo na rua do parque Evergreen. Mary se
lembrou de quando costumava brincar com Sandy naquele mesmo parque. Sim, um
dia, há muito tempo, elas eram como unha e carne.
Foi por uma
fração de segundo, um verdadeiro piscar de olhos. Enquanto ainda estava perdida
em suas lembranças, ela viu, parado entre um grupo de árvores, uma forma
sinistra que lembrava um homem alto e magro, vestido com um enorme jaleco preto
que cobria seu rosto. Nesse microssegundo, ela sentiu que ele olhava
diretamente para sua alma, desejando-a. As mãos da jovem começaram a tremer, e
seu rosto empalideceu. Era o homem da música, aquela maldita música! Ela
começou a ouvi-la novamente, como se fosse sussurrada pelo vento: "Cante
para mim, suplique por mim, e eu levarei você.
— Você está bem? — perguntou Jimmy,
ao ver que a menina começara a suar.
— Sim, estou — respondeu ela, sem
firmeza nas palavras.
Jimmy apenas
concordou, mesmo sabendo que não havia nada de bem com a garota ao seu lado,
com quem estudava desde a quinta série. Para ele, Mary Coller era uma amiga de
longa data e uma paixonite da sexta série que ele já havia superado há algum
tempo. De todo modo, ele não suportava a ideia de os outros garotos implicarem
com ela por causa de sua aparência.
Max deu dois
toques na buzina do seu Dodge Dart vermelho com teto branco, em frente à casa
de Sandy. Sua irmã, Lucy, estava no banco de trás.
— O que está
esperando? Pule logo para o banco de trás — ordenou Max à irmã.
— Está bem, já
vou — respondeu ela, impaciente.
Sandy abriu a
porta da sala e, antes de fechá-la, se despediu do pai e da mãe. Com os livros
nos braços e a mochila preta com um bordado dourado com seu nome nas costas,
ela passou pela varanda, desceu os três degraus e foi em direção ao banco do
carona no carro de Max.
— Oi, gata — Max
a cumprimentou, já se esticando para dar um beijo.
— Oi — respondeu
ela, com um sorriso no rosto, dando-lhe um beijo longo e molhado.
— Que nojo de
vocês — interrompeu Lucy.
— Max! Por que
não me disse que Lucy estava no banco de trás?
— Bem, agora
você sabe — respondeu Max, sorrindo.
— Desculpe.
— Eu é que peço
desculpas por meu irmão ser tão feio — respondeu Lucy.
— Quer ir a pé
para a escola? — perguntou Max, apenas para irritar a irmã, enquanto já
começava a dirigir.
Da casa de Sandy
até a Engled Middle School eram cerca de 15 minutos, durante os quais o casal
no banco da frente mal teve chance de conversar. Lucy, aproveitando o momento,
fazia perguntas a Sandy sobre maquiagem e unhas, com a curiosidade típica de
uma irmã mais nova. Sandy respondia pacientemente, divertindo-se com a
situação. Não tendo uma irmã caçula, gostava de compartilhar esse tipo de
coisa. As meninas do time de líderes de torcida, com quem convivia, nunca eram
verdadeiramente próximas, sempre mantendo uma distância coberta por falsidade.
Pensando nisso, lembrou-se de Mary, sua antiga amiga com quem costumava brincar
de maquiagem, usando os cosméticos da mãe. Uma pontada de saudade a atingiu, e
ela se perguntou se não deveria procurar Mary na escola para tentar retomar
aquela amizade perdida.
Depois de deixar
Lucy, o casal apaixonado chegou ao estacionamento movimentado da Hodder High School vinte minutos depois. Nos
corredores, Max e Sandy caminhavam de mãos dadas; Max parecia se gabar de
Sandy, como se ela fosse um troféu – o nadador campeão e a garota mais linda da
escola.
No meio da
multidão de alunos e da correria do intervalo, Sandy avistou Mary parada ao
lado de seu armário. Ela a observou de longe, desejando conversar, mas
hesitando em soltar a mão do namorado. O sino soou, anunciando o início das
aulas. Sandy suspirou, pensando que não seria um grande problema, pois teria
aula com Mary no terceiro horário e poderia falar com ela então.
Gostou?
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