O silêncio tenso da noite foi cortado pela respiração ofegante e pelos passos ligeiros e cansados de William Bezerra.
— Malditos! Eles vão pagar, eu juro que vão. Como tiveram coragem de entrar assim em minhas terras? Não restará um para contar a história!
A fúria enchia seu coração de ódio — com toda a razão que poderia ter — sendo forçado a sair de sua casa na calada da noite. Bando de marginais. O coração não aguentava; sentiu um aperto forte no peito. Precisava parar, ou não iria resistir. Os remédios... a droga dos remédios tinha ficado na casa. O médico dissera que eram dois por dia, sempre após as refeições.
Apoiou-se em uma árvore. Que dor dilacerante! Tentou se controlar. O bafo de ar quente saía de sua boca, enfeitiçando o ar em um tom de cinza leve — estava frio. O noticiário avisara que aquela seria uma noite para tirar as cobertas do guarda-roupa. Eles tinham avisado.
Diabos, ele não tivera intenção alguma de sair e cruzar a mata.
A dor pareceu se acalmar. Não ouviu mais barulhos de passos. Os desgraçados deviam ter desistido. Ninguém entrava naquele pedaço de terra, muito menos àquela hora da noite. Era perigoso demais para qualquer um.
William estava cansado de encontrar pertences pessoais de quem se aventurava por aqueles lados. A mata fechada era traiçoeira, mas, se naquela noite lhe restasse um pouco de sorte, talvez ela fosse uma aliada.
Mais cinco quilômetros — era tudo o que precisava para chegar até a casa do vizinho e amigo de longa data. Ele ajudaria. Ele e os filhos fariam justiça.
Aqueles desgraçados não perdem por esperar. Ameaçar um homem sozinho era fácil. Veriam como se sairiam em minoria!
Continuou a caminhar. A idade não lhe permitia ser mais rápido; a vida no campo judiava do corpo de qualquer um.
O frio parecia aumentar. As roupas, umedecidas pelo sereno das folhas das árvores, faziam sua temperatura corporal baixar. Sentia que os dedos dos pés estavam congelando.
— Vamos, continue. Não pare. Só mais um pouco, só mais alguns malditos metros.
Um estralo.
William paralisou.
Silêncio.
Havia alguma coisa errada.
Conseguia ouvir o próprio coração bater — rápido, forte. Ia começar a doer.
Galhos se moveram sobre sua cabeça. Ele olhou para cima. Um vulto cortou o céu: uma coruja.
O coração quase saltou pela boca.
— Inferno de pássaro! Quase infartei... achei que fosse...
Um pedaço de ferro frio chocou-se contra seu nariz. O sangue voou. Ele perdeu o equilíbrio e caiu sobre um monte de folhas secas e galhos velhos.
Sentiu tudo à sua volta girar. Para onde ir? Que lado?
Esforçou-se para se levantar, mas os braços não suportaram o peso do corpo.
Respirar ficou difícil. O nariz inchara com a pancada. Ouviu murmúrios. Sombras caíram sobre ele.
— Seus putos... eu vou... eu juro que vou...
O som de uma arma sendo engatilhada o calou. Era o fim.
Continua.....
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